Inovação: o que é e como construir um ecossistema?

15/03/2021

Muito se tem falado sobre inovação no Brasil e no mundo. Caxias do Sul e a região da Serra também iniciaram movimentos neste sentido, preocupadas com o esgotamento da matriz produtiva local e em estabelecer novos cenários e oportunidades para o desenvolvimento socioeconômico regional. Mas o que é, afinal, esse conceito tão propagado e pouco conhecido na sua essência? Diversos são os conceitos presentes na literatura para definir o que é inovação. O mais conhecido e padronizado internacionalmente é o proposto no Manual de Oslo, que define inovação como algo novo para o mercado e que gera resultados financeiros para a empresa.

“Inovação difere de invenção, que tem um time diferente e às vezes não traz retorno financeiro”, alerta Enor Tonolli, coordenador do programa de geração de startups StartUCS e spin-offs e professor doutor nas áreas de inovação, empreendedorismo e foresight na Universidade de Caxias do Sul. Ele também defende que melhorias, sejam em processos, produtos ou serviços, tratadas por muitos autores como inovações incrementais, são na verdade adaptações e evoluções naturais para adequação ao mercado e que não podem ser tratadas como inovação.

Inovação é, portanto, algo novo e disruptivo. O Uber e o Airbnb são exemplos de modelos de negócios inovadores que provocaram mudanças no mercado e no comportamento de consumo. Ambos criaram soluções que ninguém havia pensado antes e transformaram a ideia num negócio monetizado.

Mas como desenvolver ambientes propícios e férteis à inovação? Com a junção de talento, tecnologia e dinheiro. Esses são os três ingredientes necessários para fazer a receita do bolo crescer, ou seja, para transformar ideias e oportunidades em propostas de valor. A lição foi deixada pelo espanhol Josep Piqué, um dos maiores especialistas mundiais em inovação, em sua passagem por Caxias do Sul. Coordenador de ações que tornaram Barcelona a Capital Europeia da Inovação, ele falou para líderes políticos, empresariais e setoriais de Caxias e da região sobre transformação de cidades a partir da ciência e da tecnologia. E insistiu na necessidade de criar ecossistemas inovadores, apoiados no tripé iniciativa privada/empresas, universidades e governo, responsável pelo ambiente regulatório. “É imprescindível que os três dialoguem, conversem entre si e trabalhem de forma colaborativa, cada um fazendo a sua parte nesse ecossistema”, ressaltou.

No caso da região da Serra Gaúcha, temos alguns desafios a serem transpostos para criar um ambiente e um ecossistema sustentados na inovação. Para Tonolli, um dos desafios é o foco das nossas empresas na eficiência. “Ela coloca a inovação em xeque. Os ambientes precisam ser mais permissivos para possibilitar a tentativa e o erro.” Na visão de Thiarlei Macedo, diretor de tecnologia do Habit e diretor do Trino Polo – Polo de TI da Serra Gaúcha, o maior desafio está na mudança de mindset. “Precisamos unir forças para que as pessoas mudem o seu modelo mental, compartilhem conhecimento, trabalhem de forma colaborativa e em parceria e aceitem correr riscos. Elas têm que entender que o cenário mudou e que não dá mais para fazer da forma que se fazia há 20 anos, senão ficaremos para trás”, pontua.

Para Juremir Milani, presidente do Trino Polo e do Habit, o maior desafio a ser transposto é conectar todos os atores do ecossistema. “Precisamos, todos, entender que o trabalho colaborativo produz negócios melhores, mais ágeis e que trazem resultados para os envolvidos. Nem todos os negócios acontecerão no Habit. Eles podem ser idealizados, mentorados, investidos, e a partir deste momento voltarem para suas bases e executarem as tarefas para o sucesso do negócio, mas a convergência que fica é o mais importante para um desenvolvimento. Um centro de inovação que funcione como convergência de atores do ecossistema é um equipamento de uma cidade inteligente”, afirma.

Que a inovação traz vantagem competitiva não há dúvidas, mas também é certo que ela, por si só, não garante vida longa e perpetuação ao negócio. Tão importante quanto inovar é como esse ciclo se renova continuamente. Os riscos, inerentes à atividade de gerar coisas novas, podem ser mitigados com planejamento, estudo, conhecimento do mercado, análise de cenários futuros e colaboração. Afinal, o risco da não inovação costuma ser superior ao de inovar. 

Para refletir: a nossa região e a sua empresa são inovadoras? Que presente e futuro estamos construindo? Estamos na vanguarda ou somos seguidores?

Exemplos de inovação na Serra Gaúcha

Cake ERP

A ideia inicial nasceu em 2013, o projeto foi remodelado em 2015 e nasceu de fato na metade de 2016, da percepção de um mercado com potencial e em expansão no Brasil. O Cake ERP, spin-off que surgiu dentro da NL Informática, empresa 100% nacional que há mais de 35 anos atua na área de softwares de suporte à gestão, é um sistema de gestão on-line, com inteligência e PDV integrado, feito para micro e pequenos lojistas e franquias, já tendo sido utilizado por inúmeras MPEs em todo o país. A grande sacada do projeto é que ele continuamente está testando conceitos e inovações, com flexibilidade e agilidade que os softwares maiores não permitem. Por exemplo, um módulo específico para o varejo de compras on-line do segmento de moda, criado num prazo de apenas dois meses utilizando tecnologias emergentes.

“O Cake opera como um laboratório dentro da NL. Aquilo que funciona levamos para a NL. E isso tem funcionado muito bem. Foi importante para a nossa estrutura com mais de 30 anos, para abrirmos um novo mercado e para a nossa equipe, que foi impulsionada para novos modelos e a pensar diferente”, destaca Grasiela Tesser, CEO do Cake. 

Mooble

Quando os sócios Edson Witt, Vanderlei Buffon e André Pivoto se reuniram, na década de 90, para fundar uma empresa de softwares para projetos de ambientes não imaginavam que protagonizariam uma verdadeira revolução no setor moveleiro. Logo a caxiense Promob Software Solutions se projetou como a empresa brasileira líder em softwares para esse setor e protagoniza uma nova revolução com a criação do Mooble, plataforma onde todos os softwares rodam juntos e criam conexões entre diferentes personas operando, sejam elas o projetista, fabricantes, gestores e os próprios consumidores. 

“A grande revolução do Mooble é levar ao consumidor a oportunidade de realizar o seu projeto sem envolver terceiros e comprar os produtos que melhor se encaixem ao que ele procura sem se restringir às ofertas locais”, destaca o diretor técnico da Promob, Tiago Buffon. Na plataforma Mooble o consumidor pode realizar pessoalmente seu projeto e posteriormente complementá-lo (ou não) com profissionais especializados. “Neste caso, o Mooble abre mercados para o lojista da região com a oportunidade de receber projetos de consumidores com os quais não teria contato. É um novo canal de vendas para o varejo”, complementa. A facilidade de uso do Mooble.com acabou gerando a maior galeria de projetos em 3D do Brasil.

48h #foradacaixa

O Programa de Inovação 48h #foradacaixa, criado pela caxiense Focco Sistemas de Gestão, é um exemplo de inovação em processo. O projeto tem como propósito disponibilizar 48 horas livres para que os profissionais, organizados em equipes, possam trabalhar em qualquer tipo de projeto inovador. Para incentivar a criatividade, a empresa premia os melhores projetos com valores em dinheiro. Paralelamente, promove ciclo de palestras, abertas ao público em geral, de forma gratuita. 

“O programa é uma oportunidade para colocar ideias do dia a dia em prática com liberdade e diversão. Pensar em soluções simples, que agreguem valor para a empresa ou clientes. Ter um tempo para pensar naquilo que nunca ninguém parou para pensar”, pontua Evandro Ballico, diretor comercial e serviços da Focco.

Adriana Schio
Jornalista e Head na Invox Comunicação
adriana@invoxcomunica.com.br

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